quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Martha Medeiros... "Doidas e Santas"

Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo
que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe???
Nem ela, caríssimos, nem ela.
Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações, que desanimou.
Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá, que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto
a fé em dias melhores, que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em
alguma gaveta e nem lembra mais.
Santa mesmo, só Nossa Senhora, mas, cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela
engravidou? (Não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do.)
Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos
informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder
de sedução para encontrar “the big one”, aquele que será inteligente, másculo, se importará com
nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida,
não é mesmo? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir, às vezes,
que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo
para o alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar uma cafetina,
sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela
não tem ao menos três destas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa,
apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascinante.
Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa
insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se
recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não
existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje
mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca de pedra.